Déborah Valério
  Hoje o nome Déborah Valério automaticamente nos faz pensar em dança do ventre.

Você chegou a trabalhar em outra área ou somente com esse gênero?

Então, eu me formei no magistério e logo iniciei a faculdade de educação física. Aos 16 anos comecei a dar aulas de balé clássico. Meu primeiro emprego já foi na dança!
Daí pra frente, continuei estudando e me especializando como professora. Aos 19 já era professora de dança árabe. Logo que me formei em educação física comecei a faculdade de dança e movimento. Consegui cursar quatro semestres antes de ir embora para o exterior.

Tudo foi acontecendo no seu momento, e quando vejo já se foram quase 14 anos na dança árabe, sendo seis anos de carreira no Oriente Médio e um ano de volta ao Brasil. Às vezes me pergunto por que não me dediquei a outra área ou por que não estudei uma outra faculdade. A única resposta que encontro é a de que não tinha de ser!
A dança entrou na minha vida muito cedo e até hoje vivo dela. Dedico-me a conseguir viver o resto da vida dançando e ensinando a dançar! Mesmo tendo uma formação que envolve outras atividades, não deu tempo de trabalhar em outras áreas. Acredito que ganhei um dom e o destino de viver dele! No decorrer da vida fui fazendo minhas escolhas. Eu simplesmente não consegui me desvincular da dança!!!

Você é sinônimo de dança do ventre no Vale do Paraíba. Isso é positivo ou rola uma responsabilidade maior?

Vejo isso como algo positivo, mas com grande responsabilidade! Sei que fui pioneira na divulgação desta dança na região e que muitas professoras e bailarinas que atuam no mercado hoje, seja local ou nacional, tiveram aula comigo. Mesmo de longe acompanhei o desenvolvimento da dança aqui. Se existe esta associação entre a modalidade e meu nome é porque deixei uma marca, fiz um trabalho com profissionalismo e seriedade. Senão, hoje não lembrariam mais quem sou!
Agora, de volta ao Brasil, vejo que a expectativa pelo meu trabalho é bem maior, existe a curiosidade de ver os resultados desta minha experiência na prática! Sem dúvida eu trouxe muita novidade na bagagem, e mais responsabilidades na divulgação desta arte aqui!

Qual a melhor e a pior parte de ter a dança do ventre como profissão, na sua opinião?

Ter a dança como profissão não é tarefa fácil. Precisa de muita perseverança e determinação porque a magia da dança não paga contas nem sustenta nossos gastos!
O lado bom de ter a dança como profissão é a gratidão e o prazer de viver daquilo que se gosta e que se faz bem! A gente sempre ouve as pessoas dizendo que não gostam do que fazem. É quando sentimos um alívio bom de poder viver e trabalhar naquilo que amamos!
Mas existe um preço a ser pago por esta satisfação pessoal, que são as limitações financeiras e a desvalorização do profissional da dança. Na maioria das vezes, recebemos salários e cachês baixos, precisamos fazer muitos shows e dar muitas aulas, e nem sempre temos a segurança de uma carteira assinada com salários fixos. Ainda falta muito para termos uma carreira bem remunerada e reconhecida por aqui.

Quem foram os grandes incentivadores da sua carreira?

Muitas pessoas especiais tiveram e ainda têm participação no que me tornei hoje!
Existem os apoios pessoais, como família e amigos, e os profissionais, como professores, empresários etc... Os maiores incentivadores, sem dúvida, foram meus pais. Por razões inexplicáveis. Sem o apoio deles, financeiro e emocional, não sei se teria chegado tão longe.

Professores foram de grande importância na minha formação profissional e na motivação, entre eles Arnoldo Nascimento, Damares Antelmo, Eleonora Oliosi, Beth Cunha, Samira Samia e Fadua Chuffi, entre outros. Meus amigos, que acompanharam a trajetória toda e ainda hoje estão do meu lado, são um grande apoio afetivo! E os empresários Rodolfo Solmoirago, na América Latina, Omar Naboulsi, no Brasil e Oriente Médio, e Toros Siranossian, no Oriente Médio, que abriram as portas para meus passos no exterior.
Tenho enorme gratidão e orgulho de ter um time desses na minha história! Faltam muitos nomes aqui, a lista de agradecimentos é enorme!!!

 

Sua carreira internacional começou no mundo árabe?

Não, minha primeira experiência internacional foi aos 18 anos em um festival de danças na Bolívia. Logo depois fiz dois trabalhos na Argentina e então fui aos EUA estudar e aperfeiçoar minha dança. Para o Oriente Médio fui aos 23 anos.

Quem te levou para o mundo árabe?

Minha porta de entrada no mundo árabe aconteceu por intermédio do Sr Omar Naboulsi, empresário de bailarinas brasileiras, que representa no Brasil a Maison De L`Artiste, uma famosa agência de entretenimento, com sede em Beirute, no Líbano, e que tem na sua direção o Sr. Toros Siranossian, um grande empresário, respeitado no Oriente Médio e na Europa, conhecido por lançar e empresariar grandes nomes do mundo artístico árabe, como cantores, bailarinas, músicos etc...

Você trabalhou em muitos países árabes? Quais foram?

Foram nove países: Emirados Árabes (Dubai, Abu Dabhi, Al Ain, Rãs al Khaima), Qatar, Bahrein, Síria, Marrocos e Tunísia.

Houve um momento decisivo na sua carreira no exterior? Você teve vontade de desistir?

Nossa, muitos!!! Quem consegue ir a lugares tão distantes, tão sozinha e não ter vontade de correr pra casa quando as dificuldades acontecem?!

É muito normal na fase de adaptação a gente pensar e repensar na escolha feita. Mas aí entra a determinação e a motivação de cada um. Quando estamos sozinho ficamos mais vulneráveis, e a emoção fica à flor da pele. Coisas pequenas ganham grandes proporções e qualquer motivo vira uma grande razão! Eu tive dias muito difíceis no começo, até me sentir parte daquela vida, me adaptar àquela realidade. Depois, tudo ficou mais fácil e já não sabia se me sentia melhor aqui ou lá!

O fato de ser ocidental não fez com que te olhassem com preconceito e reservas?

Depende de como e onde. Não dá pra generalizar uma resposta porque passei por muitos países, com culturas e princípios muito diferentes. Países mais ocidentalizados do Oriente Médio, como Dubai e Líbano, têm maior aceitação de nós mulheres ocidentais, pois já convivem com isso há décadas e sofrem muitas influências do Ocidente. Já países mais fechados recebem a nós ocidentais com um pouco mais de reserva, nos julgam mais. Isso também está relacionado com o local onde você está, se é uma cidade grande ou pequena. Na carreira não sofri muitos preconceitos, pois as brasileiras conseguiram respeito e admiração como profissionais competentes e carismáticas. Mas fora do meu meio de trabalho, por vezes senti certos olhares preconceituosos, mas que fui tirando de letra! Basta você se vestir adequadamente e respeitar os costumes deles. Se queremos respeito, temos de respeitar.

Como era a sua rotina nos países árabes? Você tinha familiares, amigos?

Minha vida era bem diferente! Quando estamos lá, vivemos em função do contrato, seguimos regras e determinações dos hotéis onde trabalhamos. Nossos horários são bem loucos! Muitas vezes o show acontece tarde, o que acaba fazendo nosso dia ser trocado pela noite! Fazemos refeições em horários alternativos! Mas temos de cumprir com nosso objetivo e trabalho, que é fazer um excelente show diariamente. E se pra estar bem no palco for preciso horas de ensaio e dormir às 5 da manhã, que seja, afinal estamos lá pra isso. Mas existem também os momentos de lazer e passeios. Quanto à família, não tinha. Minha família está toda aqui. Tive amigos, alguns muito próximos, que tenho contato até hoje, de várias nacionalidades. Nossa família passa a ser você mesma e seu laptop!!! Mas sem dúvida somos cercadas de muitos cuidados e de pessoas dispostas a nos ajudar.

 

Quantas horas você trabalhava por dia? Como era sua rotina de bellydancer?

O show tinha duração de uma a duas horas, mas tem o tempo de espera para começar, além do tempo de preparo para o show, que inclui maquiagem e cabelo. No total eram mais ou menos quatro horas. Tem também os ensaios, e a frequência deles depende do entrosamento da bailarina com a banda e do conhecimento musical da mesma. Cada local tem sua banda, estamos sempre trocando de músicos, palcos e público! O repertório e a sequência de shows são previamente montados entre a banda e a bailarina. Também temos de manter a forma. Eu fazia academia e alongamentos. Não existe uma rotina fixa para a bellydancer, existem os compromissos a serem cumpridos. Depois montamos nossas atividades de acordo com o tempo livre.

Sua dança modificou quando chegou aos países árabes ?

Minha dança passou por uma adaptação para os moldes de lá. Como eu já estudava o estilo libanês, consegui entender rápido aquilo que agrada e como se dança no Oriente Médio! A gente aprende sempre, e todo contrato é uma novidade. Cada contratante gosta de um estilo musical, um estilo de dança, um estilo de bailarina. Temos de ser “camaleoas” e flexíveis. Não adianta querer impor o que é legal aqui! A dança lá fora é diferente, é mais rápida, dinâmica e sensual, sempre de salto alto, nunca descalça. Acho que minha dança não mudou, consegui criar um estilo próprio, uma identidade na dança por meio de tudo que fui aprendendo!

Quais foram os melhores e piores momentos ao trabalhar nos países árabes?

Em um período de seis anos, muitas coisas acontecem! Tenho na memória uma grande coleção de momentos bons e ruins que vivi nessa trajetória itinerante! Os melhores momentos foram os de reconhecimento pelo trabalho, por meio de bons contratos, boas críticas e estímulo à continuidade da carreira, aqueles dias em que o show sai perfeito, você se sente bem e o público fica satisfeito! Os ruins, sem dúvida, foram os dias de saudade. Passar as datas especiais longe da família e dos amigos é bem difícil!

Financeiramente a carreira de bellydancer compensa?

Depende do tempo de carreira e de como você administra seu dinheiro. Quando temos um objetivo, ficamos mais controladas nos gastos lá fora. Mas também ficar um ou dois meses trabalhando e vir embora não paga o investimento inicial. Ou seja, pode valer sim muito a pena, se você souber gastar e guardar e conseguir ficar um bom período.

Infelizmente essa carreira de bellydancer no exterior ainda gera muita polêmica no Brasil, ficando contraditórias as informações que bailarinas recebem por aqui. O que você tem a dizer?

Tenho uma opinião formada sobre as críticas e acusações que recebemos aqui. Fica muito fácil julgarmos de longe as razões pelas quais alguém está se dando bem trabalhando no exterior. Eu fiquei seis anos e já escutei absurdos! A verdade é que só quem passa pela experiência consegue vivenciar a seriedade e o profissionalismo exigidos de nós. Acho normal termos dúvidas, eu também tinha antes de ir, e fui esclarecendo na medida do possível aqui, com meu empresário, o Sr. Omar Naboulsi, e com bailarinas que já haviam ido antes. Eu mesma criei minhas expectativas e fui ver de perto. As situações que as bailarinas trazem para divulgar no Brasil são muito pessoais, nem sempre isso condiz com o contexto geral do trabalho lá. Quem passa por bons momentos acaba divulgando o lado bom. Já as pessoas que não se dão bem ou não gostam da experiência, muitas vezes chegam aqui distorcendo coisas. Mas também não cabe a mim julgar nada. Conheci bailarinas que tinham péssima impressão do trabalho e quando chegaram lá não queriam mais voltar, se surpreenderam com a seriedade do trabalho.
Somos o que somos em qualquer lugar. Se você não tem boa índole, não tem princípios aqui, lá fora também não terá e acabará por cair em roubadas e situações não profissionais pra se dar bem. Lá fora não é diferente daqui, as oportunidades e o assédio são os mesmos. Foram criados alguns mitos e inverdades sobre como conseguir sucesso lá fora! Eu posso responder por mim, e admiro muito minha trajetória.

 

Quando foi a sua chegada no Brasil? O que te motivou a voltar? Conte-nos um pouco dos seus objetivos e planos profissionais hoje.

Voltei ao Brasil há um ano. Essa decisão foi resultado de um longo processo interno de escolhas. Sempre soube a realidade desta carreira, que era curta e impossível de fazer pelo resto da vida. Sabia que teria de pensar num futuro estável. Fiz então um trato comigo mesma, de que daria um tempo quando estivesse no meu melhor momento. Pode parecer loucura ou estrelismo, mas eu já vi muita coisa, muita bailarina pedindo trabalho, e não queria isso pra mim. Queria sair bem, sendo requisitada. Senti que havia conquistado o que fui buscar, concretizei objetivos pessoais e profissionais. Comecei a sentir necessidade de novos desafios, e a velha vontade de voltar ao Brasil começou a ser muito grande. Sou movida a novidades, precisava de mais!
De volta ao Brasil, busco transmitir um pouco da bagagem adquirida lá fora, me preocupo em mostrar a seriedade e o profissionalismo que uma carreira no Oriente Médio requer. Estou em uma nova fase profissional, meu grande objetivo hoje é a inauguração do meu estúdio! (LINK), um projeto antigo que está virando realidade. Estou me dedicando muito a esta nova fase.
Também costumo dizer que estou de férias dos palcos. As pessoas me cobram para estar nos palcos, perguntam quando vou dançar, fazer shows, mas o trabalho no exterior é bem desgastante. Estou me recompondo fisicamente, afinal de contas foram seis anos consecutivos de shows diários e com um mês de férias por ano! Foi um trabalho e tanto. Estou voltando aos poucos, vocês vão me ver bastante em breve! Estou muito feliz aqui, curtindo a volta, mas a readaptação é um processo longo! A gente volta, mas com um pé aqui e outro lá!

Sua dança modificou quando chegou aos países árabes ou mudou mais agora que saiu de lá?

Essa é uma curiosidade que muita bailarina tem em saber. Minha dança passou por uma adaptação para os moldes locais. Como eu já estudava o estilo libanês, consegui entender rápido aquilo que agrada e que se dança lá fora. A gente aprende sempre, e todo contrato é uma novidade. Cada lugar gosta de um estilo musical, um estilo de dança, um estilo de bailarina. Temos de ser “camaleoas”!!! Não adianta querer impor o que funciona aqui, lá é outra história!!!
A dança lá fora é rápida, dinâmica e sensual. Sempre de salto alto, nunca descalça. Meu estilo não mudou, consegui criar um estilo próprio, uma identidade na dança, por meio de tudo o que fui aprendendo!

Como administra sua carreira no Oriente Médio hoje? Ainda tem contratos a cumprir?

Hoje mantenho contato com meus empresários, que continuam me assessorando para uma eventual volta. Neste um ano de Brasil recebi inúmeros convites para voltar, mas não era a hora. Estou em fase de readaptação e concretizando novos objetivos. As portas não foram fechadas, e jamais podemos dizer nunca! Aprendi que ter planos é bom, mas o destino ninguém muda!
Talvez eu volte ainda este ano, estamos negociando, mas quero construir meu futuro aqui, não acredito que eu volte de vez para lá! Tenho muitas razões para continuar aqui. Virei a página!

O que uma bailarina precisa ter para conquistar uma carreira bem sucedida no exterior?

Um conjunto de coisas. Não existe sucesso sem perseverança, dedicação e talento. As bailarinas dispostas a trilhar carreira internacional devem ter maturidade, boa mentalidade e muita humildade. Jamais achar que a carreira é eterna e não ter planos para depois. Além disso, um inglês fluente ajuda bastante!

Qual o maior aprendizado que você tirou de toda esta experiência no exterior?

Muitos! A gente cresce demais, não só como bailarina, mas como pessoa, em nossa essência. Aprendemos a lidar com nós mesmos e descobrimos que preconceito e discriminação não podem mais existir. Ficamos tão perto de culturas e pessoas tão distintas que acabamos percebendo que o mundo é um só mesmo e que seres humanos são iguais em qualquer parte do planeta. Os sentimentos são os mesmos.
Além disso, passamos a valorizar tudo o que temos aqui. Nosso país, nossa família, amigos, até das pequenas coisas sentimos falta e passamos a valorizar muito!
Com certeza foi um aprendizado único e maravilhoso. Uma parte da minha vida foi lá.

Quais foram os melhores e piores momentos nos países árabes?

Em um período de seis anos muitas coisas acontecem! Tenho na memória uma grande coleção de momentos bons e ruins que vivi nesta trajetória itinerante!
Os melhores momentos foram os de reconhecimento pelo trabalho, por meio de bons contratos, boas críticas e estímulo à continuidade da carreira, aqueles dias em que o show sai perfeito, você se sente bem e o público fica satisfeito! Os ruins, sem dúvida, foram os dias de saudade. Passar as datas especiais longe da família e dos amigos é bem difícil!

Voltando no tempo, você faria tudo de novo ou modificaria suas escolhas?

Faria tudo exatamente igual. Eu amo o que fiz, sinto enorme orgulho do que conquistei e construí pra mim. Não modificaria as coisas porque todas as escolhas foram justas ao momento e maturidade que tive. Guardo essa fase da minha vida como a de maior importância até hoje. Espero que todas as bailarinas que tiveram ou terão essa experiência consigam tirar o máximo de proveito. É uma chance única. E quando estamos lá e tudo dá certo temos certeza de que tiramos a sorte grande!

Você acredita em Deus?

Claro!!! Tenho minha religiosidade. Não sigo uma religião única, acredito em várias coisas e tenho minha maneira de conversar com Deus. Todo ser humano precisa de um suporte emocional que a religião consegue preencher, seja ela qual for.

Com certeza você tem muitas histórias, deve ter vivido muitas experiências. Como administra essa bagagem toda?

Nossa, eu tenho muita coisa pra contar, de todo tipo!!! Se começo a falar da minha vida no Oriente Médio não paro mais!!! São milhares de histórias! E a experiência está enraizada em quem sou hoje, a gente absorve muita coisa, e sem querer isso nos modifica internamente. Sem dúvida isso ainda vai virar um livro. Podem esperar!...

 
Beledancer